É por isso que importa

O Gabinete da Houdini — Edição 03

Por Yále, autora de Uma Nova Alvorada

O número de personagens homens, héteros, brancos e cis na literatura mundial ainda é absurdamente maior do que o número de personagens diversos e não normativos. Estou totalmente segura em dizer isso. Muitas pessoas autoras justificam a falta de diversidade em seus livros com: lugar de fala, falta de vivência, dificuldade em representar minorias, quando tudo isso só fomenta o pensamento de que minorias são tão diferentes que beira o “anormal”.

Não, não é difícil representar minorias. Não quando você convive com elas, consome seus trabalhos, escuta suas músicas, lê seus livros... Existem textos, artigos, até cursos e aulões de como escrever personagens LGBTQIAP+ e racializados, por exemplo, e isso vai além de uma descrição de tom de pele, ou de dizer “fulano é (insira aqui uma minoria)”.

Acredito que a principal pergunta que uma pessoa autora deve fazer ao se questionar sobre representatividade é: por que não? Por que não escrever um personagem negro, por que só escrever personagens héteros? E assim talvez ela encontre a resposta dentro dela mesma.

Veja bem, não estou dizendo que você autora de romance deve começar a escrever casais LGBTQIAP+ para não ser homofóbica, a questão é: só tem dois personagens no seu livro? O amigo da protagonista não pode ser uma pessoa gay, por exemplo? E mais, esse personagem pode não ser retratado com um estereótipo batido repetido em milhares de mídias?

O foco aqui não é dissertar sobre a representatividade em um panorama macro, e sim delimitar o ponto da importância da representatividade em livros no geral. Digo no geral porque não necessariamente um livro precisa ser de romance ou precisa ter um casal em foco para abordar vivência LGBTQIAP+. Muito menos um personagem racializado precisa sempre ter como base o racismo e/ou a xenofobia para ter um desenvolvimento dentro de uma história; ou uma mulher precisa aparecer na trama e sofrer alguma violência, para impulsionar o desenvolvimento do seu par romântico; ou uma pessoa gorda precisa sofrer bullying e por aí vai.

Essa época já foi, — ou pelo menos deveria ter ido — por isso as minorias lutam tanto para livros não terem a demarcação “gênero literário LGBTQIAP+”. Porque não somos um gênero. Somos pessoas vivendo histórias diversas como qualquer outra. E estamos cansadas de explicar isso. O que torna até esse texto, um tanto clichê.

Então, por que importa?
Joanna Pilarczyk - The Untitled Space
Joanna Pilarczyk “Gentle Embrace” 2023

A resposta é mais completa do que a que vou dar, mas para mim, é bem simples de entender: não existem só pessoas brancas, padrões, héteros e cis no mundo. Por que existiriam só elas nos seus livros? Mas, às vezes, o óbvio precisa ser dito bem alto e mastigadinho para todo mundo entender.

Representação e representatividade têm significados diferentes. Representação significa estar presente, visto. Representatividade vai além de ser visto, é sobre representar politicamente interesses de um grupo especialmente em um espaço onde pode ocorrer mudanças, e a literatura é um desses espaços.

Eu cresci sem nenhuma representação LGBTQIAP+ a minha volta. Vivia criando subtextos homossexuais para suprir essa falta. Esse é um dos motivos pelos quais muitas pessoas não entendem o porquê LGBTQIAP+ shippam tantos casais que não são casais e/ou são ditos como héteros nas mídias. “Ah, mas fulano e ciclano não têm nada a ver”. Pra nós não importa tanto se “tem algo concreto e validado” (não importa se é canon rs), importa o imaginário; é onde nós passamos boa parte da nossa vida, principalmente a vida amorosa. A ausência e a exclusão causam uma procura quase que carente para se enxergar, desesperadamente, em algum lugar.

A literatura é a porta de fuga para muitos LGBTQIAP+. O mundo das fanfics é um verdadeiro paraíso de qualidade duvidosa. Dois cliques, uma tag e pronto, você vai encontrar alguém que escreveu aquele casal que você jurou ser improvável, seja a história boa ou não. E de novo, a tal da representatividade. É justo uma parte da sociedade precisar cair num submundo para encontrar histórias com personagens que a representem enquanto a outra parte entra numa livraria qualquer e todos as suas vivências estão expostas livremente?

Anos atrás, se eu quisesse um romance entre mulheres onde uma delas é uma bruxa e a outra era uma sereia, eu precisava garimpar até a página 10 do Google. Hoje, talvez precise de dez minutos de pesquisa para encontrar uma gama de histórias dentro desse tema com abordagens e autorias distintas. É exatamente disso que estamos falando. Esse é o sentimento.

E ele ressoa com a mesma sensação que uma mulher tem ao ver uma astronauta mulher pela primeira vez indo ao espaço, ou quando uma pessoa trans vê uma mulher trans e deputada lutar por direitos para melhoria da sociedade, quando uma pessoa homossexual vê sua artista favorita balançar a bandeira LGBTQIAP+ na praia de Copacabana em rede nacional. Em doses diferentes, esse é o sentimento.

E por isso, importa.

Não é um meme quando algumas pessoas dizem: só quem é (insira aqui alguma minoria) vai entender tal coisa. Não é uma exclusão do outro, como muitos pensam, é uma verdade; até porque, por muito tempo, os excluídos fomos nós, e ainda somos.

Sim, as coisas melhoram. Vou concordar com você. Mas até um mês atrás a pauta nas redes sociais era uma desquerida dizendo com muito orgulho que não lia livros LGBTQIAP+. Em 2026, o número de empresas apoiando a parada LGBTQIAP+ caiu consideravelmente e não é coincidência isso acontecer após a onda de conservadorismo crescente no país. Também não é coincidência o alto número de rejeição a livros de romance romântico e/ou erótico, sejam eles LGBTQIAP+ ou não. Também não é coincidência pessoas, agora aqui principalmente homens héteros e cis, se sentirem tão confortáveis em menosprezar narrativas femininas. A raiz do problema é a mesma com consequências diferentes, pois os alvos são diferentes. Nós não estamos todos no mesmo barco da sofrência, mas não é uma competição. Não deveria ser.

O mercado editorial pode ser adoecedor. Digo isso como alguém que atua no meio como autora e nos bastidores. A gente vê muita coisa triste, muito pink money, mas eu aprendi, a duras penas, que às vezes é o que nos faz chegar a algum lugar. Ocupar algum lugar. Dar a oportunidade de abrir a porta para outras pessoas como eu ocuparem o espaço também.

Enquanto a sociedade continuar a presumir que todos os habitantes desta terra são héteros, cis e brancos, eu continuarei insistindo para que todos vocês presumam que todos os meus personagens, seja de Uma nova alvorada, ou qualquer outra história, são parte da sigla LGBTQIAP+, não brancos e não monogâmicos. E espero que isso te represente de alguma forma.

Uma Nova Alvorada

A Madame Houdini é uma editora feita por mulheres e para mulheres que amam fantasia, mas querem algo novo, fresco e visceral. Damos voz a romances inusitados e histórias que desafiam o padrão. Aqui, a curadoria é feita à mão para quem não se contenta com amores óbvios. 🔮