O Gabinete da Houdini — Edição 02
Por Hortência Alves, autora de A Maldição da Rosa Negra
Quando iniciei minha jornada na escrita profissional, eu decidi escrever o gênero com o qual mais me identificava, a saber, o romance romântico.
O romance romântico, com todos os seus prolíficos subgêneros, trata basicamente de dois (ou mais) seres humanos (ou nem tão humanos assim) se envolvendo de maneira romântica e, por um pacto social coletivo, vai terminar de maneira positiva para as personagens principais.
Dentro dos incontáveis clichês, elementos e tropos desse gênero, e em se tratando da experiência romântica humana, existe a possibilidade de que nessa história as pessoas envolvidas acabem se envolvendo sexualmente — e fica a cargo do autor mostrar ou não o que acontece a portas fechadas.
Acho que a primeira coisa que eu gostaria de pontuar sobre cenas hot, em geral, é justamente isso: a existência ou não dela em uma história depende única e exclusivamente de o autor estar ou não a fim de incluí-la.
Existe um consenso em muitos manuais de escrita que diz que toda cena precisa empurrar a história para frente, que tudo o que está no livro tem que servir ao enredo, ao desenvolvimento do personagem ou da narrativa. Essa ideia se solidificou muito por conta da influência de manuais de roteiro para o audiovisual estadunidense, mas acredito que a gente pode tomar esses conselhos com um pouco de cuidado.
No que diz respeito ao ofício do escritor, nada é escrito em pedra e uma das minhas crenças principais é que a história precisa ser um deleite primeiramente para quem a escreve.
Então, se você quer que sua história tenha uma cena hot, essa é a única razão que você precisa para a cena existir!
Observe, leia e aprenda
Em 2023 publiquei meu primeiro livro. E essa foi a primeira vez que escrevi uma cena com conteúdo sexual explícito. Posso dizer, sem sombra de dúvida, que foi a cena mais difícil que escrevi naquele trabalho, e posso afirmar com toda certeza que não foi muito boa.
Veja, apesar de esse livro ser a primeira obra que eu estava mostrando para o mundo, estava longe de ser a primeira vez que me dedicava a escrever alguma coisa. Escrever sempre fez parte da maneira como eu interagia com o mundo ao meu redor e é uma das coisas que me sinto melhor fazendo.
Contudo, não sei escrever sobre tudo e nem sei como escrever sobre tudo. Quando me vi tendo que escrever uma cena hot, de repente, vi todas aquelas velhas amigas minhas, as palavras, companheiras de tantos anos, me abandonarem sem nenhum remorso.
Sacaninhas.
Eu me apoiei então na minha experiência de leitora e fui em frente. Submeti o texto original a leitoras betas e leituras críticas e, com o feedback que recebi, fui lapidando o texto. A versão hoje publicada, com certeza, é muito melhor do que o meu original.
Esse é um ponto importante: a gente escreve sozinha, mas não deve (ou não deveria) publicar um livro sozinha. Ainda que o caminho independente seja o da sua escolha, é muito importante submeter seu texto a olhos profissionais.
Certo, mas como isso tudo pode te ajudar a escrever uma cena hot?

Mais uma vez, isso aqui não tem a intenção de ser um manual definitivo, apenas um compartilhamento de ferramentas do que tem me ajudado com as minhas dificuldades enquanto procuro superá-las ao longo do caminho. Então aqui vão as minhas dicas:
A primeira e mais básica dica para qualquer aspirante a escritor: leia. Leia muito, leia de tudo e não se prenda a um gênero. Claro, leia também o seu gênero, mas não se restrinja a ele. Existem cenas de sexo em diversos estilos e formatos, das mais líricas às mais explícitas, escritas em quase todo período da história humana desde que o ser humano inventou a escrita.
Mais ainda, leia mulheres. O romance romântico é, em sua essência, um gênero feito por e para mulheres e eu acredito firmemente que devemos continuar exercendo o nosso protagonismo, lutando nessa trincheira sem ceder um palmo sequer para quem só sabe menosprezar o que é do nosso interesse.
Por esse mesmo motivo, não busco minhas referências em mídias das quais eu não sou público-alvo, e são universalmente reconhecidas como exploratórias e nocivas às mulheres. Estou falando especificamente da indústria pornográfica. Não quero fazer aqui juízo de valor; quero me ater essencialmente ao que utilizo como material de inspiração para as cenas que escrevo e ao que funciona para mim.
Há espaço para todo tipo de história e estilos de escrita. Pessoalmente, eu me inclino para cenas que vão aprofundar a relação entre as personagens e conduzirão a história desse casal para outra fase, mas, como eu já disse, essa não precisa ser a sua jornada.
Mãos à obra: como estruturo uma cena hot
Agora, o que vou compartilhar aqui pode parecer um tanto técnico para uma cena que é em sua essência tão visceral. Essas foram as soluções que encontrei e que funcionam para mim. Sei que para muitas outras autoras outros modos de fazer farão mais sentido. A questão é: a gente só aprende fazendo, e na maioria das vezes, fazendo mal até ficar bom.
Começo descrevendo a cena como ela surge na minha mente de forma bem simples e descritiva. Nessa fase, não estou preocupada com a riqueza do texto, se utilizei as melhores palavras, se o sentimento que eu queria passar com a cena está correto. É um rascunho cru de partes humanas se tocando e se encaixando.
Quando estou moderadamente satisfeita com a direção da cena, eu retorno e releio. A prática ajuda a perceber onde sobra e onde falta, e agora é o momento de fazer esse texto se tornar compreensível para o leitor. As posições de cada um estão claras? Não apareceram, por exemplo, duas mãos esquerdas fazendo ações diferentes? O espaço em torno deles foi bem estabelecido para que o casal não esteja flutuando em um abismo por falta de descrição adequada? Não estou atrás de excessos, mas é importante ser minimamente coerente com o espaço e a ordem dos fatos.
A última parte é trazer esse texto à vida com cheiros, sons, texturas, sabores. Para além da visão, explorar todos os sentidos ajuda na imersão da cena — de qualquer cena, na verdade, mas especialmente em cenas de sexo. É esse momento também de adicionar o que esse personagem está sentindo internamente. Em geral, eu trabalho com terceira pessoa limitada, então estamos falando do ponto de vista de apenas um dos personagens. Para mim, é importante trazer como aquela ação está afetando o personagem por dentro.
Com o passar do tempo, cada uma dessas três etapas acaba se aglutinando e ficando mais fluída. Quanto mais a gente escreve e acessa esse “rio de ideias” de onde fluem as histórias, quanto mais aberto fica esse canal, mais fácil fica escrever essa e outras cenas.
No fim, é tudo sobre contar histórias
As dicas que compartilhei aqui foram focadas em cenas de sexo, mas no fundo, servem para qualquer uma. Experiências humanas, nosso amor por histórias, por conexões, por entender o que motiva o ser humano ao longo da nossa curta experiência sobre a Terra — é isso que nos impele a escrever e a ler.
Seja fiel e honesta às suas verdades, seja aberta e receptiva a outras perspectivas, não se acanhe diante de um desafio e esteja sempre atenta para aprender.
E lembre-se sempre: um texto mal escrito será sempre muito superior a qualquer ideia perfeita que nunca foi parar no papel.
Antes da cortina abrir
Conteúdos para consumir antes de você começar a criar:
- Uma playlist para esquentar o clima entre os seus personagens.
- Um pulo nostálgico nos anos 2000: monte uma fita secreta para o seu próximo vem aí.
A Madame Houdini é uma editora feita por mulheres e para mulheres que amam fantasia, mas querem algo novo, fresco e visceral. Damos voz a romances inusitados e histórias que desafiam o padrão. Aqui, a curadoria é feita à mão para quem não se contenta com amores óbvios. 🔮